Quanto custa imprimir uma peça: as sete contas que quase ninguém faz
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Pergunte a dez pessoas que imprimem quanto custou a última peça delas e nove vão responder com o preço do filamento. É a resposta natural, porque é o único custo que aparece: você compra o rolo, vê o dinheiro sair. As outras seis linhas saem do seu bolso sem passar por nenhum comprovante.
A peça deste texto é a mesma do começo ao fim: 48 gramas, 3 horas e meia de impressão, em PLA de R$ 90 o quilo, numa impressora que custou R$ 2.500. O filamento dela custa R$ 4,32. A peça custa R$ 19,69.
- MaterialR$ 4,32
- MáquinaR$ 2,19
- EnergiaR$ 0,40
- PreparaçãoR$ 7,50
- AcabamentoR$ 2,50
- EmbalagemR$ 1,50
- Reserva de falhaR$ 1,29
O filamento é a terceira maior linha, e responde por 22% do custo. A maior, com 38%, é o seu tempo preparando o lote.
1. Material — e por que o preço de tabela não serve
Gramas ÷ 1000 × preço do quilo. A parte que erra é o preço: use o que você pagou no último rolo, com frete, e não o valor de tabela do fornecedor. Comprar cinco rolos com frete grátis e um rolo avulso com R$ 25 de frete são dois custos por quilo diferentes.
Em peça de várias cores, cada cor entra com o próprio peso e o próprio preço. Uma cor especial três vezes mais cara desaparece dentro de um custo médio, e some justamente o item que explicaria por que aquela peça ficou cara. E o filamento descartado na torre de purga também é material comprado: numa peça de quatro cores, a purga passa fácil de 20% do que a peça pesa.
2. Máquina — a impressora se pagando
Valor da impressora ÷ horas de vida útil esperada × horas da peça. No exemplo: R$ 2.500 ÷ 4.000 horas = R$ 0,625 por hora, vezes 3,5 horas, dá R$ 2,19.
A vida útil é uma estimativa e não precisa ser exata — precisa ser conservadora. Se a máquina durar mais que o previsto, você embolsou a diferença; se quebrar antes, ela já se pagou. Some no valor os upgrades que você fez, porque eles também precisam voltar.
Sem essa linha, a próxima impressora sai do seu bolso e não do faturamento da oficina. É o sintoma mais comum de quem factura bem e nunca consegue crescer.
3. Energia — pequena por peça, não por mês
Potência média ÷ 1000 × horas × tarifa. Aqui, R$ 0,40. É a menor linha da conta e a que mais gente ignora — com razão, se a oficina tem uma máquina. Com seis, viram uns R$ 250 por mês que não estão orçados em lugar nenhum. A conta completa está em quanto de energia gasta uma impressora 3D.
4. Preparação — a maior linha, e a mais esquecida
Fatiar, ajustar suportes, preparar a mesa, trocar o filamento. São 15 minutos à sua hora de R$ 30: R$ 7,50. É a maior parte do custo desta peça, e não aparece em nenhuma conta de nenhum lugar.
Um detalhe que muda tudo: preparo é do lote, não da peça. Preparar uma vez serve para as dez. Se você dividir os 15 minutos por peça, o pedido de dez peças fica dez vezes mais caro no item errado — e é assim que se espanta o pedido grande, que é justamente o que paga bem.
Na peça única do exemplo, o preparo pesa 38%. Num lote de dez, ele vira R$ 0,75 por peça e cai para 7%. Essa é a economia de escala real da impressão 3D, e ela só aparece se o preparo estiver na conta desde o começo.
5. Acabamento — o que cresce sem ninguém ver
Tirar suporte, lixar, colar, montar, conferir. Cinco minutos por peça: R$ 2,50. Esse é por peça mesmo, e não dilui com a quantidade — é o oposto do preparo.
É a linha que mais surpreende em pedido grande. Dez minutos de lixa em cinquenta peças são oito horas e vinte de trabalho. Se o orçamento não tem acabamento, esse pedido foi vendido com um dia inteiro de serviço de graça.
6. Embalagem e componentes
Caixa, plástico-bolha, etiqueta, saquinho: R$ 1,50. Some aqui parafuso, ímã, corrente e eletrônica que a peça leve. Cada item é barato o suficiente para parecer irrelevante, e juntos eles passam a energia com folga — nesta peça, embalagem sozinha custa quase quatro vezes a energia.
7. Reserva de falha — o custo do que não deu certo
Uma porcentagem sobre tudo que veio antes. Aqui, 7%: R$ 1,29. Ela existe porque nem toda impressão termina, e a que falha consumiu filamento, hora de máquina e energia antes de parar.
Sem essa linha, o refugo sai do lucro. E como o refugo não tem nota fiscal nem data marcada, ele nunca aparece como “prejuízo” — aparece como um mês em que sobrou menos do que devia, sem motivo aparente.
Comece com 7% e, depois de alguns meses registrando as falhas, troque pelo seu número medido. Oficina que registra costuma descobrir que está entre 5% e 12%, e quem não registra costuma achar que está em 2%.
Do custo para o preço
Custo é medição; preço é decisão. Com R$ 19,69 de custo e 40% de margem desejada, o preço é 19,69 ÷ 0,60 = R$ 32,82, arredondado para R$ 33,00. Dividir, não somar: somar 40% ao custo daria R$ 27,57 e uma margem real de 28,6%.
O raciocínio completo, com imposto, taxa de maquininha e o número que diz se vale ocupar a impressora, está no guia de precificação. Para fazer a conta com a sua peça em vez da do exemplo, a calculadora aberta tem as sete linhas separadas e não pede cadastro.